Estudo aponta que faixa azul para motos pode dobrar mortes no trânsito
30 de janeiro de 2026
Uma intervenção no trânsito que recentemente começou a ser testada em Fortaleza e já está sendo aplicada em São Paulo pode ter, na prática, um efeito inverso ao planejado: a faixa azul, preferencial para motocicletas, pode dobrar o número de mortes em acidentes envolvendo pilotos em cruzamentos.
Os dados são de estudo elaborado na capital paulista pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade de São Paulo (USP) e Instituto Cordial, em parceria com a Vital Strategies, organização global de saúde pública. O relatório foi divulgado nesta sexta-feira (30). Fortaleza não sediou etapas da pesquisa.
Partindo de registros de acidentes e de monitoramento por drones em São Paulo, em 2024 e 2025, os pesquisadores de engenharia de transportes verificaram que o número de sinistros fatais em cruzamentos envolvendo motociclistas é de 100% a 120% maior com as faixas azuis – dobra ou mais do que dobra.
Foram estudados quatro recortes de acidentes de trânsito: atais em cruzamentos; fatais em meios de quadra; feridos em cruzamentos; feridos em meios de quadra.
Os dados foram significativos e conclusivos para confirmar o primeiro cenário, como explicou Flávio Cunto, membro da pesquisa, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da UFC e presidente da Associação Nacional de Ensino e Pesquisa em Transportes (Anpet).
“Quando temos resultado estatístico significativo, como observamos nas vítimas fatais em cruzamentos, é porque a diferença (do número de acidentes) foi muito grande no antes e depois da intervenção (instalação da faixa azul). Não temos dúvidas de que piorou”, destacou o pesquisador.
O estudo analisou, de forma paralela, as vias com faixa azul e as vias similares, ou seja, aquelas que não receberam a intervenção. Essas “vias de comparação” servem para os pesquisadores chegarem a resultados mais precisos e conseguirem atestar a relação direta entre os acidentes e a faixa azul.
Um dos fatores de risco para aumento dos sinistros é a velocidade: nas vias com faixa azul, a probabilidade de os pilotos excederem os limites cresce. Em trechos distantes de semáforos ou de outro veículo, a velocidade média dos motociclistas aumentou de 58,3 km/h para 72,2 km/h.
Longe de pontos semaforizados, conforme a pesquisa, 81,1% das motos circulam acima de 60 km/h, enquanto nas vias de comparação – que permitem estimar o que teria ocorrido caso a faixa azul não tivesse sido implantada – esse índice é de apenas 34,6%.
Além disso, o pesquisador Flávio Cunto pontuou um problema adicional da faixa azul: a “turbulência” ocasionada pela posição dela. Ao entrar ou sair da faixa em momentos de conversão, por exemplo, as motos se “entrelaçam” a outros veículos, gerando cenário propício a sinistros.
Diante dos resultados, a pesquisa conclui que a “faixa azul não configura medida de segurança viária”, e contra recomenda a expansão ou regulamentação da intervenção – mas sugere condições que devem ser seguidas pelas prefeituras caso insistam na implementação:
gestão ativa de velocidades (incluindo fiscalização por velocidade média);
tratamentos de redesenho viário nos corredores, com atenção especial aos cruzamentos;
reforço e continuidade de sinalização horizontal nas aproximações e travessias;
transições mais legíveis para entradas e saídas do corredor de motos; e
monitoramento antes-depois com grupo de comparação.
Faixa de rolamento dedicada aos motociclistas, a “faixa azul” foi criada em São Paulo pela prefeitura, em 2022, como projeto-piloto. Em 2025, já haviam sido implantados 221 km de extensão dessa medida.
Em Fortaleza, uma faixa azul em caráter experimental foi instalada em outubro de 2025 na Avenida Humberto Monte, entre as ruas José de Pontes e Rio Grande do Sul. A segunda, prevista para novembro passado na Av. Santos Dumont, ainda não foi concretizada.
Ouvido sobre o assunto, o superintendente da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), Sérgio Costa, afirmou que conclusões com base em outra cidade são prematuras, devido às particularidades de Fortaleza, e que ainda não foram feitos estudos locais sobre o tema.